O óleo e a gordura residual (OGR), presentes no cotidiano de bares, restaurantes, empresas e das baianas de acarajé, podem deixar de ser um resíduo descartado de forma inadequada para entrar em uma cadeia de reciclagem, geração de renda e produção de biocombustível.
É esse processo que está no centro da campanha Cada Gota Conta, desenvolvida pelo Centro de Arte e Meio Ambiente (CAMA) em parceria com associações e cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis. O OGR é um resíduo reciclável contemplado pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010).
Quando descartado de maneira incorreta, pode provocar impactos ambientais e também problemas operacionais nos sistemas de saneamento.A estimativa apresentada para a campanha é que 1 litro de óleo pode contaminar até 25 mil litros de água.
Quando despejado em pias, ralos ou redes de esgoto, o resíduo pode provocar obstruções, elevar os custos de manutenção dos sistemas de saneamento e contribuir para a emissão de gases de efeito estufa durante sua decomposição, incluindo o metano (CH₄).
A proposta do Cada Gota Conta é justamente interromper esse ciclo de descarte inadequado e fazer com que o óleo usado tenha um destino correto, passando pela coleta, pré-tratamento, transporte e processamento até se transformar em novos produtos, como o biodiesel.
Da coleta à transformação
O processo começa com a coleta do óleo e da gordura residual pelas cooperativas. O material recolhido é submetido a um pré-tratamento e, posteriormente, transportado até a Usina de Biodiesel da Petrobras Biocombustível (PBIO), em Candeias.A partir da chegada do OGR à unidade, começa uma nova etapa da cadeia de logística reversa.
O primeiro procedimento é a pesagem e o descarregamento do material. Em seguida, o óleo passa por uma análise de laboratório, responsável pela checagem das especificações do produto.Depois dessa etapa ocorre o faturamento.
Na sequência, o material passa pelo processo de refino e limpeza, antes de seguir para o processamento destinado à produção do biodiesel. Durante o processamento, também são gerados glicerina e borra como coprodutos.
Dessa forma, o óleo usado recolhido pelas cooperativas percorre uma cadeia que conecta a coleta realizada pelos catadores à indústria de biocombustíveis.
30 toneladas adquiridas em 2025
Em 2025, foram adquiridas 30 toneladas de óleo e gordura residual das cooperativas contratadas na Bahia. De acordo com os dados fornecidos, esse volume resultou em:75 toneladas de gases de efeito estufa (GEE) evitados, 70 toneladas de biodiesel produzidos, 750 milhões de litros de água preservados.
O volume de água preservado equivale a aproximadamente 300 piscinas olímpicas ou 750 mil caixas-d’água de mil litros. Também corresponde ao abastecimento de uma cidade ou bairro com 100 mil habitantes durante 15 dias.
A reciclagem do OGR permite, portanto, que um material com potencial de causar contaminação ambiental seja reinserido em uma cadeia produtiva, contribuindo para a economia circular, a redução da poluição e a geração de renda para cooperativas e catadores.
Catadores entram na cadeia de biocombustíveis
Além do resultado ambiental, a logística reversa desenvolvida a partir da coleta do OGR cria uma relação direta entre os empreendimentos de catadores e a indústria de biocombustíveis.
Entre os pontos destacados estão a inclusão da categoria econômica dos catadores no mercado de biocombustíveis, por meio de uma relação direta com a indústria e preço justo, equivalente a 95% do óleo de soja da Bolsa de São Paulo.
A Usina de Biodiesel da Petrobras Biocombustível em Candeias também oferece apoio logístico, com doação de recipientes destinados à coleta e ao armazenamento do óleo.Os catadores contam ainda com uma equipe exclusiva para tratativas, acompanhamento e apoio, além da mobilização de parcerias para fortalecer a participação da categoria nesse mercado.
A iniciativa também é apresentada como parte da Transição Justa e Energética, com inclusão popular e geração de renda.Outro dado destacado é a emissão de 85% menos gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. Atualmente, o diesel utilizado no país possui 15% de biodiesel.
“Cada Gota Conta não é só uma campanha – é transformação”
Para Michele Almeida, vice-presidente da Camapet, a iniciativa representa uma mudança na forma como o resíduo é tratado e aproveitado.
“Cada Gota Conta não é só uma campanha – é transformação. Realizada em parceria com a CAMA – Centro de Arte e Meio Ambiente e as cooperativas de reciclagem, com a Camapet sendo pioneira entre os empreendimentos nesse processo de coleta e destinação correta, recolhemos óleo de fritura usado e azeite de dendê de bares, restaurantes, empresas e das nossas queridas baianas de acarajé”, explica ela.
Michele destaca ainda os impactos ambientais e sociais da destinação correta do material. “Sua importância é fundamental. Evita que esses resíduos poluam rios, mares e solos, protegendo a biodiversidade e a qualidade da água, gera renda digna e inclusão socioprodutiva para os catadores e catadoras de materiais recicláveis, fortalecendo a economia solidária e transforma o que seria lixo em matéria-prima nobre para biocombustível produzido pela Petrobras, abastecendo aviões e veículos com energia limpa e renovável”, pontua a vice-presidente.
Ela resume a proposta da campanha em uma mensagem que conecta preservação ambiental, valorização profissional e sustentabilidade: “resíduo com destino certo não polui, ele preserva a natureza, valoriza pessoas e constrói um futuro mais sustentável para todos”.
15 associações e cooperativas participam da iniciativa
O coordenador executivo do CAMA, Joilson Santana, destaca que a campanha reúne 15 associações e cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis dos municípios de Salvador, Santa Maria e Camaçari.
Segundo ele, o trabalho mostra como a sensibilização da sociedade pode se unir à atuação dos empreendimentos de catadores para transformar um resíduo em desenvolvimento sustentável e renda.
“A campanha Cada Gota Conta, desenvolvida pelo Centro de Arte e Meio Ambiente, junto com 15 associações e cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis, dos municípios de Salvador, Santa Maria e Camaçari, mostra, na prática, como a união entre a sensibilização da sociedade e o trabalho desses profissionais, ou seja, desses empreendimentos de catadores, transformam um resíduo altamente poluente em desenvolvimento sustentável e renda”, esclarece o coordenador.
Joilson também chama atenção para o impacto que o descarte incorreto pode provocar sobre os recursos hídricos: “apenas 1 litro de óleo descartado, ou seja, o óleo de fritura descartado, o azeite de dendê incorretamente, pode contaminar até 20 mil litros de água”, acrescenta.
Logística reversa conecta coleta, indústria e transição energética
A estrutura criada pela campanha permite que o óleo usado percorra uma cadeia definida: é coletado pelas cooperativas, passa pelo pré-tratamento, é transportado para a Usina de Biodiesel da Petrobras Biocombustível em Candeias, onde é pesado, descarregado, analisado em laboratório, faturado, refinado e limpo, antes de seguir para o processamento do biodiesel.
Para Joilson Santana, essa estrutura também representa uma oportunidade de inserção dos catadores no mercado de biocombustíveis.
“Ao estruturarmos essa logística reversa e destinarmos o óleo de fritura usado para a produção de bio, de de biodiesel, através da comercialização direta para a Petrobras Biocombustível, evitamos a contaminação de recursos hídricos, reduzimos a emissão de gases de efeito estufa, e inserimos diretamente os catadores e catadoras de materiais recicláveis no mercado de biocombustíveis, o mercado da transição energética energética justa e inclusiva, com remuneração justa e valorização desses profissionais”, finaliza.
Assim, o Cada Gota Conta estrutura uma cadeia na qual o resíduo recolhido nas atividades comerciais e por meio das baianas de acarajé é direcionado para a reciclagem, passando pelas cooperativas e chegando à indústria para ser transformado em matéria-prima para a produção de biodiesel.
O resultado combina destinação correta de resíduos, preservação da água, redução de gases de efeito estufa, economia circular, produção de biocombustível, inclusão socioprodutiva e geração de renda para catadores e catadoras.


