Um levantamento recente revelou o peso que a mobilidade urbana exerce sobre a vida das mulheres no Brasil. De acordo com a pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, quase quatro em cada dez brasileiras (39%) já precisaram abrir mão de uma vaga de emprego ou recusaram convites para oportunidades profissionais devido a problemas de deslocamento.
O estudo, desenvolvido pela consultoria de diversidade Indique em parceria com a organização feminista Think Eva e a empresa 99, ouviu 564 mulheres entre 18 e 60 anos de diferentes classes e regiões do país. Os resultados mostram que a mobilidade urbana restringe não apenas a ascensão profissional, mas o bem-estar e o convívio social.
Insegurança e assédio lideram queixas
Para 32% das entrevistadas, a sensação de insegurança e o medo da violência são os maiores impeditivos para circular pelas cidades. O impacto é direto na rotina: 87% evitam determinadas regiões, 73% planejam os horários em que saem de casa e 60% já alteraram suas rotas originais apenas para tentar se proteger.
O fantasma do assédio sexual é uma realidade massiva: quase 90% das mulheres relataram já ter sofrido algum tipo de assédio durante os deslocamentos. Os ônibus concentram a maior parte dos casos (68,8%), seguidos pelas caminhadas a pé (60,8%) e pelo sistema de trens e metrô (50,2%).
A falta de recursos financeiros para arcar com o transporte aparece como o segundo maior entrave (22%), seguida pela precariedade estrutural do transporte público (15%) e pelas longas distâncias (14%).
O peso da renda e do cuidado
O estudo evidencia um forte abismo social na forma como as mulheres se locomovem. Enquanto 80,3% das mulheres de baixa renda dependem regularmente dos ônibus, o uso cai para 52,1% entre aquelas com maior poder aquisitivo. No sentido inverso, o carro próprio é uma realidade constante para 40,6% das mulheres de alta renda, sendo acessível para apenas 8,3% das de baixa renda. No cenário geral, 68% das participantes não possuem veículo próprio.
A pesquisa reforça ainda o papel histórico da mulher na economia do cuidado. Para muitas, o trajeto não se resume a ir de casa para o trabalho. Cerca de 43% planejam sozinhas os deslocamentos ligados à família (como levar filhos à escola, idas à farmácia e consultas médicas). Diante dessas responsabilidades, mais da metade das mulheres (53%) recorre a carros por aplicativo quando precisam transportar crianças, idosos ou pessoas com deficiência.
Impacto na vida social
Os obstáculos estruturais também esvaziam o lazer. A pesquisa aponta que 80% das mulheres já faltaram a eventos ou encontros pelo cansaço e custo do deslocamento. A vida noturna é a mais prejudicada: 69% afirmam já ter deixado de sair à noite pelos mesmos motivos. O estudo contou com a contribuição de especialistas em mobilidade e planejamento urbano para analisar os dados coletados ao longo do ano.


